Blog · 12 de outubro de 2026
A privatização de uma estatal prejudica todos os brasileiros
Os serviços de abastecimento de água e energia pioraram depois da privatização; no caso do BB, os pequenos agricultores podem perder acesso ao crédito com juros subsidiados

Quando uma estatal é vendida, a maioria das pessoas acredita que só os trabalhadores da empresa serão prejudicados com demissões em massa e congelamento de salários para os poucos que mantiverem seus postos de trabalho.
É com esse “senso comum” que o bolsonarismo trabalha quando defende seu projeto de desestatização. É por causa desse sentimento de que “não tem nada a ver comigo”, que o candidato Flávio Bolsonaro fala abertamente que pode privatizar 95% das estatais brasileiras.
Cuidado para não cair no jogo deles. As privatizações de estatais prejudicam todos os brasileiros, que passam a pagar mais pelo gás, pela gasolina, pelo diesel, pela água e pela energia. No caso dos combustíveis, o impacto vai muito além das bombas: primeiro, a distribuidora privatizada pratica preços abusivos; depois, os transportadores repassam esse aumento aos fretes. No fim das contas, quem paga a conta é você, com preços mais altos nos produtos que consome todos os dias.
Desconfie quando ouvir que privatizar é bom para o Brasil. Privatização é projeto de governo que não tem compromisso com o povo. O compromisso deles é com os ricos e oportunistas do mercado financeiro.
“Eles gostam de fazer negócios para ganhar dinheiro, para roubar o Brasil”, denuncia Ricardo Berzoini, aposentado do Banco do Brasil e ex-ministro de Estado, nas redes sociais. Ele lembra que o pai do atual candidato Flávio Bolsonaro, o Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar, tentou privatizar o Banco do Brasil (BB) e os Correios e só não conseguiu porque houve resistência.
“A pandemia também atrapalhou um pouco eles, mas eles venderam a BR Distribuidora, uma empresa fantástica e a Eletrobras, fundamental para o Brasil. Venderam também a refinaria de Mataripe, na Bahia, e a refinaria de Manaus”, relembra.
“E tem gente do Banco do Brasil, da Caixa, dos Correios e da Petrobras que ainda não percebeu isso. Se o Flávio ganhar, tchau emprego, fundo de pensão e plano de saúde”.
“Foi o que aconteceu na Eletrobras e na BR Distribuidora. Não se enganem, é demissão em massa, fim da previdência e da saúde”, completa o ex-ministro.
O fato concreto é que vender uma estatal rende dinheiro uma vez. Perdê-la significa abrir mão, para sempre, de um instrumento de política pública.
Quando a União vende uma estatal, deixa de ser sua controladora e passa a ter poder de voto limitado, perdendo a capacidade de coordenar políticas públicas em setores essenciais para a soberania do país, como as políticas energética e de oferta de crédito acessível, com juros subsidiados.
Privatização: apagões e preços mais altos
Os brasileiros que convivem com empresas de energia e abastecimento de água privatizadas já sabem que a venda de empresas estatais significa preços mais altos e piora na qualidade dos serviços prestados.
Setor elétrico
No caso do setor elétrico, com milhares de trabalhadores demitidos pelos novos donos das estatais de energia, que não se preocupam com planejamento, manutenção de rede e qualificação dos novos contratados, sendo a maioria terceirizada e sem direitos, o Brasil sofreu uma série de apagões sem precedente na história do país.
Entre os episódios de maior repercussão estão: 1) 14 de outubro de 2025, quando um incêndio em um reator na Subestação de Bateias, em Campo Largo (PR), causou um blecaute que afetou vários estados em várias regiões do país durante quase uma hora em concessionárias como Enel SP, Light e Amazonas Energia. 2) Em 15 de agosto de 2023, uma falha na interligação Norte-Sudeste deixou 25 estados e o Distrito Federal sem energia, afetando cerca de 60 milhões de pessoas e exigindo até seis horas para a normalização completa do Sistema Nacional Interligado. 3) No Amapá, em 2020, um incêndio em uma subestação deixou 13 dos 16 municípios do estado sem eletricidade por 10 dias.
A dimensão dos cortes de pessoal ajuda a contextualizar esse cenário. Embora balanços de parlamentares e órgãos legislativos apontem 3.600 demissões nos primeiros anos após a privatização da Eletrobras, a Federação Nacional dos Urbanitários (FNU), em campanhas pela reintegração de trabalhadores, estima que cerca de 20 mil postos de trabalho tenham sido afetados.
Combustíveis disparam na Bahia após privatização da refinaria
A Refinaria Landulfo Alves (Rlam) foi vendida em 2021 para fundos dos Emirados Árabes Unidos, que mudou o nome para Refinaria Mataripe. A população baiana conheceu a verdadeira face da privatização depois da tragédia das demissões. A empresa tinha 900 concursados da Petrobras, não sobrou nenhum. E fez vários processos de demissões dos 1.800 terceirizados.
Enquanto demitia trabalhadores, a nova controladora sentou a caneta e promoveu um dos maiores aumentos de preços praticados no país: o gás de cozinha subiu 17%, a gasolina 37%, e o óleo diesel, 58%.
Como ficou claro, todos pagaram a conta. Os preços em geral subiram muito acima da inflação e o motivo é simples: o diesel é o combustível usado em caminhões que transportam mercadorias país afora. Se aumenta o diesel, aumentam os custos dos transportes e das mercadorias que chegam ao consumidor final, pois empresas cuja produção depende de maquinário a diesel também sofrem impactos e, claro, repassam ao consumidor.
Como toda a cadeia produtiva do país reajusta os preços, tudo fica mais caro e os trabalhadores perdem o poder de compra.
Confira outras histórias de privatizações que mostram que, além das demissões, a promessa de eficiência e serviço melhor quase nunca se cumprem.
Os bancos estaduais, nos anos 1990. O Banespa, o Banerj e o Banestado foram privatizados e absorvidos por grandes grupos, como Santander e Itaú. O resultado foi uma onda de fechamento de agências e de demissões em massa, e muitas cidades pequenas perderam a presença de um banco público que financiava a produção local. O que era instrumento de desenvolvimento regional passou a seguir a lógica da rentabilidade.
A Vale, em 1997. A mineradora foi vendida por cerca de R$ 3,3 bilhões, valor muito criticado desde então, diante do tamanho das reservas e do que a empresa passou a faturar. Sob controle privado, vieram os rompimentos das barragens de Mariana (2015), na Samarco, controlada pela Vale e pela BHP, e de Brumadinho (2019), na própria Vale, que deixaram centenas de mortos e danos ambientais irreparáveis. Para os críticos, o caso mostra o risco de entregar um ativo estratégico a quem tem como prioridade o lucro do acionista.
A Telebrás, em 1998. A telefonia se expandiu, mas o setor ficou entre os campeões de reclamações dos consumidores, com tarifas elevadas, qualidade irregular e cobertura desigual. Houve também forte redução de postos de trabalho e terceirização, com precarização das condições de trabalho.
As distribuidoras de energia. Em São Paulo, a Enel, que assumiu a antiga Eletropaulo, protagonizou apagões que deixaram milhões de pessoas sem luz por dias, em 2023 e em 2024, com prejuízo para famílias, comércios e hospitais. Nas distribuidoras federais privatizadas em 2018 e 2019, no Norte e no Nordeste, a qualidade do serviço e a situação financeira de algumas empresas continuaram sendo problema.



